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Fidel e o sonho

Por Almir Forte

12.10.2017

 

 

 

“Meu sonho era ter uma mulher, um filho, uma casa e um carro. Hoje tenho uma mulher, dois filhos, uma casa e dois carros. É muito mais do que eu sonhei. Agora, não trabalho mais no final de semana, a não ser em caso de urgência, que não será a minha, certamente. Os finais de semana agora são prá minha família, minha mãe no BNH e meus amigos”

 

Estas palavras teimam em não sair de minha cabeça. Martelam constantemente, como se fosse um provérbio ou uma profecia, quando na verdade foi o que me disse o meu irmão, meu amigo e camarada Fidel, alguns meses atrás. Um homem feliz que realizou o seu sonho. O homem menino, moleque, profissional de grande mérito do Hospital Evangélico, onde foi trabalhar logo que terminou sua residência médica em São Paulo e retornou a Cachoeiro.

 

A vaidade é sua inimiga, a ambição desconhecida e o ódio desprezado. Mas você é um guerreiro. O guerreiro da paz, da felicidade e da vida. Quantas crianças vieram ao mundo com sua colaboração? Fossem ricas ou pobres, brancas ou negras. Tivessem elas plano de saúde ou fossem do SUS. Dr Fidel, como era chamado atendia a todos com o mesmo carinho, o mesmo sorriso e o profissionalismo de sempre.

 

Posso dizer de cadeira, pois minhas irmãs, minha sobrinha e tantas outras amigas quando foram ter seus filhos o escolheram como seu anestesista. E se bem me lembro até eu passei por suas mãos naquela sala de cirurgia.

 

Você, vestido de verde e sorrindo, traduzia a todos a certeza de que a vida não terminava ali. E era verdade. Assim é Fidel, o menino que deixou a cidade para se profissionalizar em medicina e voltou para aplicar o conhecimento em seus conterrâneos, seus irmãos, seus amigos, seus conhecidos e desconhecidos. Era o sonho de um homem que se tornava realidade. Contrariando tudo e a todos, era o que se podia chamar de “um Rei em sua própria terra”.

 

Foi pescar, sem nunca ter sido pescador. Foi voar sem nunca ter tido asas, foi ousar onde nunca tinha ousado e foi sonhar onde jamais havia sonhado. Foi apenas aproveitar um pouco de liberdade, descansar do trabalho estafante que escolheu para ajudar a humanidade. Humanidade. É o que ele sempre defendeu, ao dizer que nunca existiria humanidade se não houvesse a solidariedade, a compreensão, o respeito ao cidadão, o direito a vida, a felicidade e o amor no sentido mais puro da palavra.

 

O capital transforma o homem, mas não transformou Fidel. Ele materializou as palavras do filósofo, ao provar que o homem e a vida têm valor e somente as coisas têm preço. Agora, estamos todos aqui sem ter o que dizer de sua ausência. Não acreditamos ainda que você está ausente. Sentimos sua presença na respiração de cada um de nós, na batida de nossos corações que teimam em acelerar e ir cada vez mais rápido, como se fosse suprir as batidas de seu coração que não podemos mais ouvir.

 

Falamos mais e mais. Falamos de todos os cachoeirenses que voaram com você, Ronaldo, Ricardo Leandro, Eugênio, Marlon, Luiz Albano, Mozart, Júlio Guidi, Hélio Godoy e Luiz Rogério. No entanto, não sabemos o que falar de você. Mas, por que falar de você? Se a qualquer momento você vai chegar brincando, sorrindo como se a vida não tivesse fim. E realmente ela não termina para quem acredita nela da forma como você sempre acreditou e nos ensinou a acreditar.

 

E por isso, não podemos nunca nos despedir de você, pois você diria que não está indo embora, pois ainda é muito cedo. E realmente você tem razão. Ainda é cedo demais para dizer adeus. Digamos portanto, até logo ao Fidel e a todos os cachoeirenses do misterioso e tão sonhado vôo, cheio de histórias de pescadores na volta pra casa. Todos chegarão certamente.

 

* Republicado a pedido, por ocasião do aniversário de 11 anos do trágico acidente com o famoso vôo da TAM, ocorrido em 29 de setembro de 2006, que deixou nossa cidade órfã desses grandes cachoeirenses

 

 

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