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Sobre afetos e saudades

Por Anete Lacerda

21.04.2017

 

 

 

Uma rápida olhada pela janela, com a chuva caindo suavemente lá fora, revela o Rio Itapemirim de um ângulo nunca visto. Saudade gostosa da minha infância e da frequência regular à área de lazer da Ilha da Luz.

 

Recém chegada de Brasília, vivi uma liberdade até então desconhecida. Diria até que inimaginável. Era tudo para uma criança criada numa cidade cercada de medo e lendas urbanas, que apavoravam minha mãe ao ponto de nos manter sempre trancados em casa.

 

Às margens do Rio Itapemirim, eu meus irmãos e um primo brincávamos à exaustão. Foi ali que pescamos pela primeira vez e tomamos muitos banhos, a qualquer hora do dia, num prazer simples e libertador. De lavar a alma.

 

Como esquecer de Dona Darc1la, uma negra esguia e já de cabelos brancos, que amava pescar e nos ensinava a bater com a ponta da vara na água três vezes, para atrair os peixes. “Se não fizer isso ninguém pega nada. E bico fechado, para não espantar a pesca”.

 

Achávamos graça e obedecíamos. Mesmo sem sua companhia, o ritual era religiosamente obedecido. E as piabas e carás, abundantes, premiavam os aprendizes de pescadores. Ainda me lembro da aventura de entrarmos escondidos num bote do meu pai e partirmos rumo a uma ilhota próxima, sem noção do que era remar e nem do perigo que isso representava.

 

Ainda retida na memória uma enchente que destruiu a horta cuidadosamente cultivada pela minha mãe. Acordamos percebendo a agitação em casa e na vizinhança e descobrimos, encantados, que o rio do fundo do quintal chegara à janela da cozinha. Foi um misto de medo, curiosidade e emoção. Foi a primeira vez que vi o rio como algo devastador e perigoso, que podia arrastar bois, móveis e pessoas.

 

Foi ali naquela comunidade que frequentei uma sala de aula pela primeira vez, mesmo não tendo idade para isso. Foi lá também que descobri a dificuldade de ser canhota, já que começava a escrever da esquerda para a direita e não entendia porque a professora elogiava, mas queria que começasse do lado contrário.

 

Por esses tempos, andei a cavalo no pelo, pela primeira vez, na casa de uma “tia de exclamação” como diria o Marcos(ele queria dizer “de consideração”). Fazia arte escondido, claro, sem a menor noção de perigo. Galopava livre, sentindo o vento fresco no rosto, ou o sol escaldante a deixar suas marcas na pele ainda muito clara e cheia de sardas.

 

Quando reuníamos primos e amigos, descíamos um morrinho da frente de casa aboletados em folhas enormes de coqueiro. Os arranhões e unhas arrancadas não eram tão incomuns assim, mas isso não importava. O que valia, e muito, era ser feliz com coisas tão simples e renovadoras.

 

Podíamos tudo e tínhamos certeza de que seríamos capazes de nos proteger a todo tempo, e de que tudo daria certo. Éramos imbatíveis e invencíveis e estaríamos sempre juntos. Doce sonho de criança.

 

São muitas saudades. Vontade de voltar no tempo e me refugiar na minha inocente e agitada meninice. Hoje, mais do que nunca, sei dolorosamente que o Itapemirim, antes abundante e caudaloso, motivo de tantos afetos, nunca mais será o mesmo. E percebo, lamentavelmente, que eu também seguirei o meu curso esvaída de energia e de sentido. O perigo hoje é a indiferença e arrogância. Certamente a vida nunca mais será a mesma.  

 

 

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