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Frestas de esperança

Por Anete Lacerda

12.01.2018

 

 

 

“Queria destacar uma coisa. Não devemos tirar a esperança de ninguém porque muitas vezes é só o que resta, o que permite às pessoas seguirem em frente”. Estas palavras, ditas entre tantas outras num culto de gratidão em família no último dia 31, se destacaram. Saltaram, multicoloridas, na minha frente. Fiquei num êxtase contido, a pensar em coisas mil. 

 

Foi um choque, de certa forma, porque muitas vezes já olho para algumas pessoas e situações, e até para mim mesma, com a certeza de que tudo vai piorar, por fatores diversos, sejam históricos ou circunstanciais. Há tempos em que o placar é de 7 x 1 para a desesperança.

 

Mas seja através da escrita ou de palavras, eis que passamos novamente a esperar novos tempos, apesar das lutas, dificuldades e desencantos. E quando a pauta é esperança, não poderia deixar de lembrar um dos meus autores (ao lado de Cora Coralina) favoritos, o fantasticamente sublime e simples Mário Quintana.

 

Em entrevista   Quintana foi certeiro: “O ditado diz que, enquanto há vida, há esperança. Eu digo que enquanto há esperança há vida. Porque nunca foi encontrado em nenhuma parte do mundo, num bolso de um suicida, um bilhete de loteria que fosse correr no dia seguinte”. 

 

Mas esperança não é o mesmo que otimismo. Quintana a tratava poeticamente, mas não de forma tola, como destacam alguns de seus admiradores. O também escritor mineiro e psicanalista Rubem Alves dizia que esperança é o contrário do otimismo.

 

“Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração. (…) A esperança tem suas raízes na eternidade. O otimismo se alimenta de grandes coisas. Sem elas, ele morre. A esperança se alimenta de pequenas coisas. Nas pequenas coisas ela floresce.  

São palavras para esperançar, reesperançar e ressiginificar. A seca absoluta do lado de fora, destacando todas as impo

ssibilidades, traz rasgos de luz em pequenos detalhes que podem passar despercebidos, não fossem o olhar sensível e a “antena delicadíssima”. Então, nada melhor do que “quintanear” para finalizar o texto e iniciar o ano.

 

Esperança

 

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se E

— ó delicioso voo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

 

 

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