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Noves fora, nada

Por Anete Lacerda

09.02.2018

 

 

 

Se tudo piora, ser repetitivo é inevitável, infelizmente. E preciso, mais uma vez dizer que ando assustada com os juízes e paladinos da moralidade alheia do mundo real e virtual. Da cultura do ódio que se naturalizou de forma avassaladora. Sem dó nem piedade.

 

Penso nisso após ler matérias sobre estudantes Nota 1000 na redação do Enem. Uma moça tem 18 anos e foi aprovada em Medicina numa universidade federal. A outra tem 19 e após três tentativas, também foi aprovada em Medicina na UFRJ. As semelhanças param por aí.

 

A primeira é filha de um engenheiro e de uma médica. Mas estudou um período em escola pública. A outra, filha de um pedreiro e uma telefonista, é negra, estudou a vida toda em escola pública e frequentou um cursinho graças a uma bolsa de estudos integral. Provavelmente more em alguma favela.

 

A primeira é branca e linda. A segunda é negra e foi classificada como feia por alguns que leram a matéria e postaram nos comentários, cruéis em relação às duas. O problema é o polêmico sistema de cotas. A primeira, acusada de patricinha, teria burlado o sistema e ido para a escola pública no último minuto do segundo tempo. A outra teria se beneficiado do coitadismo. Então, há comentários contrários e favoráveis. “Parabéns Beatriz, você merece!!! Atire A PRIMEIRA PEDRA QUEM TIROU Nota 1000 na redação do Enem”.

 

Beatriz, a menina pobre e negra, é enfática na defesa do sistema de cotas: “Isso não é sistema de benefício a ninguém. É a forma de o governo corrigir um erro que é deixar o negro de lado, negligenciar a educação do pobre. Por anos, não tive matemática nem biologia”. E aí começa a desconstrução.

 

“Penso,logo existo...não quero e não preciso de cotas....cotas: a arma dos incompetentes”.  “Que menina feia”. “É mal cuidada porque não tem condições de cuidar do corpo como as patricinhas fúteis de classe média-alta,Sérgio.Depois de formada, talvez cuide de pessoas com desvio de comportamento e doentes como você! “

 

E os ataques raivosos não param por aí.  “ESQUEÇA raça, raça quem tem é animal irracional, sua raça é humana, sua cota é de ESCOLA PÚBLICA (justíssima), tirou nota máxima PORQUE SABE ESCREVER PRA CARAMBA - não foi porque conhece libra... poderia ser a melhor em Libra do mundo, se não tivesse talento para escrever não faria uma redação excelente. TODAVIA, se não tivesse feito cursinho, não teria passado, tenho AS MESMAS condições que você e passei em Medicina depois que fiz cursinho... SEM COTAS.”. 

 

“Beatriz: PARABÉNS! Seus pais devem ter orgulho de você! Aliás, todos deveriam ficar felizes quando uma pessoa pobre consegue um feito desses. Sua cor ou o fato de entrar pelo sistema de cotas não influenciou a sua redação. Além de dedicada aos estudos vc tem empatia, o que falta muito nas pessoas. Garanto que mais da metade que postou contra vc aqui não passaria num vestibular público nem por sistema de cotas. SIGA EM FRENTE! O MUNDO PRECISA DE PESSOAS COMO VOCÊ! “

 

Então, estamos todos sob as lupas dos juízes de plantão, desde que sejamos alguém ou façamos alguma coisa. E esse “ser alguém” pode ser simplesmente seguir sua vida, tranquila, sem atravessar o caminho de

 

ninguém. Entrar numa universidade federal, passar num concurso, ser feliz, trabalhar, seguir em frente, tudo isso incomoda. Parte da sociedade te quer deprimido, arrasado, sem perspectiva e rastejando, rumo a um futuro incerto e sombrio, ou em direção a lugar nenhum.

 

Estudei a vida toda em escola pública, passei no primeiro vestibular que fiz para uma universidade federal, num tempo relativamente sem competição. Se não me falha a memória, eram apenas 20 candidatos por vaga. E estudava com os filhos das pessoas mais ricas e influentes de Vitória. Para o vestibular, saiu um ônibus fretado de Cachoeiro com alunos de uma escola particular conceituadíssima na época. E só eu e mais uma pessoa, de escola particular. passamos. Era uma das poucas pobres da minha sala.  Mas segui em frente, em tempos de menos patrulha ideológica e ódio.  Então que a inveja desapareça. Que os melhores desejos e sonhos sejam mola propulsora. Sempre e em qualquer circunstância. Quanto a cultura do ódio, noves fora nada.

 

 

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