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Pobre Roberto

Por Célia Ferreira

20.04.2017

 

 

 

Como todo mundo que tem mais de 40 – anos, decepções, esperanças – ouvi no rádio e na TV Sérgio Sampaio botando o bloco na rua. Na minha percepção infantil, era um refrão bom de repetir, entoado por um doidão cabeludo, rebelde como eu queria ser.  Apenas uns quinze anos depois, convivendo com cachoeirenses, passei a conhecer um pouco melhor o trabalho impressionante desse artista genial.

 

Foi nessa época que conheci o blues em que Sérgio se dirige ao seu conterrâneo Roberto Carlos, e que começa de forma emblemática: “Meu amigo”, diz ele logo no primeiro verso de “Meu Pobre Blues”, contrariando aqueles que afirmam sempre ter havido um sentimento de grande animosidade entre os dois artistas. Ou, pelo menos, já aparentemente de guarda desarmada diante de qualquer desentendimento anterior.

 

Quiseram o destino, o marketing das gravadoras e a vontade popular que Roberto se tornasse “o Rei”, enquanto Sérgio abrigou-se entre outros gauches na periferia do mercado, à margem da então voraz indústria fonográfica, habitando o que em outras épocas chamava-se de underground, lugar de muito talento e pouco reconhecimento. E até hoje Roberto não cantou o seu pobre blues.

 

Dizem que lá nos anos 70 Roberto teria mandado um bilhete a Sérgio, pedindo a ele uma música para seu próximo disco, e que Sérgio não lhe respondeu de imediato, o que teria deixado o Rei ofendido. Já em Cachoeiro, contam as boas línguas que os dois não se entendiam mesmo, desde sempre. Uns dizem que a culpa seria de Sérgio, que se sentia maior do que o “concorrente”, compositor de meras baladinhas românticas. Outros garantem que o culpado seria Roberto, santo de pau oco, incapaz de aceitar a existência de talento igual ou superior ao seu, ainda mais em sua própria terra.

 

Não sei o que é verdade ou mera lenda a permear o imaginário dos fãs. Seja como for, quando ouço “Meu Pobre Blues”, fico intrigada sobre o que mantém Roberto Carlos até hoje irredutível diante do pedido emocionado e desprendido feito por Sérgio. No fundo, tenho essa recusa perene de Roberto em relação a cantar a composição de Sérgio como um indício de que ele (Roberto) é o “culpado” nessa história. Alguém que permanece inflexível diante de uma tentativa de aproximação, diante de alguém que se diz “maravilhado” diante de seu sucesso ou de sua obra, diante até mesmo da morte do outro – este alguém não deve mesmo ser uma pessoa muito legal. Pobre Roberto...

 

Eu sempre achei que artistas, ou pelo menos grande parte deles, são por natureza seres estranhos, atormentados e temperamentais. Estive algumas vezes com Sérgio e sei que ele era um provocador, alguém que nunca poderia ser definido como “uma pessoa comum”. E as notícias sobre Roberto relatam transtornos e isolamento – sem esquecer o tema principal de suas composições, a rejeição.  Dois grandes artistas, duas personalidades que não cabiam em si mesmas e transbordaram em forma de músicas memoráveis. E eu, fã de ambos, sempre torci para que Roberto um dia cantasse Sérgio Sampaio. Hoje, sinceramente, não sei se Roberto ainda merece a minha torcida. Sérgio brilha cada vez mais, sem ele.

 

 

 

 

 

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