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Dois pontos sobre quase nada

Por Célia Ferreira

12.10.2017

 

 

 

Primeiro ponto: não tenho nada a dizer que ainda não tenha sido dito. Sentada em meu sofá, a cidade me chega por uma fresta de janela e, daqui de onde estou, não há luz, som ou movimento que eu já não conheça ou que mereça explicação.  Durante as 24 horas do dia, duas telas brilham diante de mim, emitindo feixes luminosos que por vezes denunciam as digitais carimbadas num canto de óculos, e esta é talvez sua única função: mostrar-me a sujeira do mundo.

 

Ao meu lado, livros, revistas, jornais. Letras de todas as idades me rodeiam, a relatar que todas as histórias já foram contadas de todas as formas.  Poemas, romances, ensaios, novelas, peças, crônicas, contos.  A vida real codificada está arquivada em imensas bibliotecas que nos desafiam, escarnecendo de nossa prevista derrota nessa disputa tão prazerosa e cruel. Bilhões, trilhões de páginas a vencer. Não precisamos de mais nenhuma.

 

Segundo ponto: ainda que tudo já tenha sido dito, continuamos a dizê-lo sucessivamente. Sem qualquer novidade. De minha parte, em cada linha que escrevo, descubro a inspiração de meus autores prediletos, e me aproprio de suas falas. Vejo o mundo com o olhar dos que me antecederam, e o traduzo numa infinidade de citações. Repito descaradamente.

 

Não me preocupo em inovar original

 

Alguém já disse, e acho que fui eu mesma, que não há nada que realmente importe, a não ser viver, tentando ser feliz. Afinal, não tem coisa melhor: pensar, ouvir música, ler poesia, amar à toa, sonhar acordado, sorrir, às vezes chorar. Depois de certa hora, não é preciso mais nada na vida.

 

Inédita, aqui, somente a minha respiração. Pois é meu o desejo de dizer e é minha a boca que sopra palavras em seu ouvido, vagarosamente. É quase nada. Mas faz toda diferença.

 

 

 

 

 

 

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