Home    Colunista    Marcelo Schwan    Medo

Medo

Por Marcelo Schwan

14.11.2017

 

 

 

O medo foi o que manteve nossos antepassados vivos, dizem, e como consequência foi o que nos fez ser o animal que somos hoje. Claro, há também outros instintos e sensações envolvidas nisso – fome, sexo, frio – e até mesmo sentimentos, mas foi ele basicamente o responsável pelo primeiro sistema binário conhecido pelo homem: fico e enfrento a ameaça ou fujo e me escondo dela?

 

Com o passar do tempo outros medos foram povoando a mente e o imaginário do bicho homem. As ameaças reais à sua vida – predadores, doenças e catástrofes naturais entre outras – deram lugar a outros temores, estes nem tão tangíveis assim: ira divina, bruxarias, má sorte. De qualquer forma, ele sempre esteve presente em nossa vida, e ainda está.

 

Particularmente passei por quase todas essas fases. Quando estava no primário o termo bullying ainda não existia, mas a prática sim – e nem por isso pertenço a uma geração de fracotes ou de pessoas com problemas psicológicos. Eu passei, então, por alguns bons apertos na escola. Por algumas vezes eu tive que cortar a volta de colegas que eu sabia que iriam me aborrecer; escolhia fugir, uma vez que seu eu ficasse e enfrentasse a ameaça eu sabia que iria ser pior, fisicamente com certeza.

 

Mais tarde passei a ter medo de que o mundo acabasse, isso foi no final da Guerra Fria. Interessante que é a mesma ameaça que paira sobre o nosso planeta hoje, apesar de a maioria das pessoas não se dar conta disso – basta o menino maluquinho dos olhos puxados se desentender para valer com o topetudo do norte e colheremos uma bela safra de cogumelos atômicos. Contudo eu também tinha medo de várias doenças, tinha medo de morrer; enfim, tinha medo de muita coisa, a maioria delas sem fundamento. Jovem, tive medo de servir ao exército; não queria ir para o Tiro de Guerra de jeito nenhum. Como não consegui que me dispensassem, fui obrigado a servir. E até hoje tenho certeza de essa ter sido uma das melhores coisas que já me aconteceu na vida.

 

Depois, adulto, vieram o medo de não conseguir emprego, o medo de perder o emprego. Medo de o salário acabar antes do fim do mês e faltar algo em casa, e por aí vai. Hoje há algumas coisas que me incomodam, mas não posso dizer que seja medo. Incomoda-me o fato de eu saber que dentro de alguns anos o sexo deixará de ter importância para mim – ou será mesmo uma impossibilidade. Incomoda-me também saber que, algum dia, não serei capaz de praticar as atividades físicas que eu gosto, como andar de bicicleta com os amigos, jogar frescobol com minha esposa e filhas.

 

Mas há dois medos dos quais é difícil eu me livrar, apesar de eles não me visitarem com frequência: um, o de eu perder minhas faculdades mentais, de eu não ser capaz de ter domínio sobre minha mente e meus pensamentos. O outro, que de certa forma vem a ser o oposto do primeiro, é ter a minha mente sã aprisionada em um corpo inerte. Essas coisas me assombram de vez em quando.

 

 

Comentários


(28) 3511-7481

 

es.fato@terra.com.br

redacao@jornalfato.com.br

 

Faça parte de nosso Facebook!

 

© 2016 Jornal Fato. Todos os direitos reservados.