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Massacres anunciados

Por Maurílio Carvalho

11.01.2017

 

 

 

Se não bastassem as tragédias econômicas e políticas que marcaram o ano que findou, o que se inicia já registra duas grandes tragédias sociais. No dia primeiro de janeiro, 60 presos foram mortos – destes, 42 tiveram as cabeças arrancadas – em presídios de Manaus. Cinco dias depois, 06/01, mais 31 presos mortos com os mesmos requintes de crueldade. Desta vez, o palco da carnificina foi Roraima. Pelo menos nestes dois casos, o pessoal dos Direitos Humanos não pode culpar a polícia. A matança foi deflagrada por causa de brigas entre facções rivais que dominam os presídios nesses dois estados – aliás, facções dominar presídios é regra na grande maioria dos estabelecimentos penais brasileiros.

 

O Estado até tenta se impor, mas em presídios com superlotações – outra realidade do sistema penal do Brasil – e com número de presos muito grande, ele “manda” do portão das galerias para fora. Lá dentro são outras regras que vigem. Eu mesmo passei por uma experiência desse tipo de situação. Em 1997, passei num concurso da Secretaria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, e fui trabalhar na Penitenciária Milton Dias Moreira, no extinto Complexo da Frei Caneca, onde estavam presos os chefões do Comando Vermelho do Rio Janeiro. Quando a cadeia “lombrava”, e isso poderia causar problemas para a Administração da penitenciária, a gente chamava o “Japonês”, o “Reizinho da Barra”, o “Macumba” e o “Dênis da Rocinha”, e dizia para eles colocarem “ordem na casa”, pois havia presos desrespeitando as regras da Administração e desrespeitando funcionários. Recado dado, paz total. Essa “comissão”, presidida pelo “Japonês”, tomava conta de tudo, afinal, se a baderna continuasse, quem perderia visitas e outras regalias, como, por exemplo, circular livremente dentro do pavilhão, portanto, com acesso a todas as celas, eram eles, os chefes.

 

No caso de Manaus, a coisa saiu do controle. Fazer acordo com vagabundo em troca de votos dá nisso. “Nossa facção é tão fraca que nós elegemos foi um governador”, é o que diz o chefão máximo da “Família do Norte” (FDN), José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, que em 2014 ajudou a eleger o atual governador do Amazonas, José Melo, do Pros, e em 2015 garantiu a assessores do governador que haveria “paz na cadeia e nas ruas”, em troca de algumas regalias, conforme publicado pela revista Veja no final de 2015.

 

Só que, no caso de Manaus, as regalias foram longe demais e custou a vida de sessenta presos rivais da FDN. Conforme matéria da revista Veja desta semana, a virada de ano no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compej), palco da matança, foi do tipo “liberou geral”. Ignorando um ofício da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado, datado de 31 de dezembro, portanto, véspera do massacre, que dizia que “havia risco de fuga” naquele estabelecimento penal, bem com a presença de pelo menos “8 armas de fogo” lá dentro, o que a Administração do Compej fez foi liberar as visitas na tarde do dia 31, sem passarem por revista, inclusive, com direito a baile funk até alta madrugada, segundo a reportagem de Veja.

 

Ou seja: o governador do Amazonas e toda a cúpula da Administração do Compej têm muito a explicar aos familiares dos mortos. Não é justo todos os brasileiros pagarem pela conivência de um governo aliado ao narcotráfico, como quer o presidente Michel Temer, grupos de Direitos Humanos, e, quem diria: até o Supremo Tribunal Federal. Que as famílias das vítimas do massacre têm de ser indenizadas... pode até ser. Mas, espetar na conta de todos os brasileiros uma tragédia previamente anunciada – com dia, hora e meios – aí não é justo.

 

Cada Estado tem a sua “tragédia” para cuidar. A União não tem de se meter nisso. Afinal, a matança de Manaus e de Roraima são apenas o começo de muitos massacres que virão. Ou alguém acha que o Primeiro Comando da Capital (PCC), principal alvo das mortes bárbaras deste  começo de ano, vai deixar isso barato? Preparem os rabecões. Muito sangue vai jorrar.     

 

 

 

 

 

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