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Desamar

Por Paula Garruth

19.05.2017

 

 

 

Quando já era madrugada e o telefone tocou eu não queria atender. O sono já vinha alto, causado por aqueles comprimidos azuis dos quais me tornei dependente desde que você foi embora levando meu Manoel de Barros de cabeceira que estava marcado na página oitenta e sete. Lembro de ter parado ali no final do ano retrasado, quando a poesia dele começou a me invadir os poros causando calafrios medonhos. Eu, que não sabia desses efeitos colaterais das letras de Manoel, passei muito tempo sentindo essas coisas sem saber de onde vinham. Quando vi seu número insistindo em falar comigo achei que era caso de morte e disse um alô meio sonolento. Aí você me conta que depois de tanto tempo tentou voltar mas a sua chave já não abria a porta. Achou mesmo que eu não ia trocar a fechadura? No correr do tempo muita coisa mudou. Suas chaves já não abrem minhas portas e nem as suas palavras me convencem. Depois do luto e do processo de autopiedade e autodestruição eu saí e vi o sol, vi amigos e vi possibilidades. Vi tudo aquilo que a sua obsessão por mim não deixou que eu visse. E tudo aquilo que a minha obsessão por você fez com que eu não tivesse vontade de ver. Passei a comprar flores brancas na feira e a abrir a cortina do quarto sempre escuro. Depois de muito tempo a casa ficou arejada e fresca. Foi quando eu decidi que você ficaria de fora e quase mudei de casa. Como não pude mudar de casa mudei, mudei a casa. A lâmpada da varanda que estava queimada e você nunca trocou agora anda acesa todos os dias, como se tivesse festa. Embora as festas não sejam diárias, fica sempre aquele ar de que está tudo bem e obrigada. Festa não é só quando um monte de gente acha motivo para comemorar. Pode ser, e quase sempre é, só um estado de espírito. Joguei fora aquele tapete marrom. Eu odeio marrom, e mesmo assim você insistia para que ficássemos com aquela coisa horrível, só porque foi presente da sua mãe. Aliás, todos os presentes da sua mãe que você não levou eu fiz questão de jogar fora ou distribuir para a caridade. Ela, que olhava para mim com aqueles olhos de reprovação, deve ter te falado inúmeras vezes que sabia que essa relação não ia dar certo. Mas deu. Deu certo enquanto era para dar. E quando eu achei que ainda dava você foi embora, porque achar que vai dar certo precisa ser mão dupla. Não te desejei mal nem nos meus piores surtos de dor, como não desejo agora. Mas também não te desejo de volta. Não há mais nada aqui que te pertença e nem espaço para sua coleção de canecas de festivais de chopp, uma cafonice que eu suportava por amor. Não é incrível as coisas que suportamos por amor? Sua mania de cuspir na pia da cozinha, de deitar com os pés sujos e assobiar enquanto eu ainda dormia eram irritantes. O amor me fez passar por elas naturalmente, mas o desamor me provou que não quero mais nada disso. A gente não diz para as pessoas “eu te desamo”. Diz que não ama mais, que apenas gosta, que ficou o respeito, que sente gratidão. Diz até que odeia. Mas que desama não diz. Na minha falta de argumentos para te convencer que acabou te digo que estou totalmente dominada por um enorme desamor por você. Aceita isso não como um não, mas como uma consequência de suas próprias escolhas. Te desamar ainda guarda um pouco da história que compartilhamos e de tudo que aprendemos a duras penas um com o outro. Te desamar não é te odiar. Mas um desejo que mantenha distância segura. Precisei te desamar para que meu coração estivesse preparado para o amor que vem em seguida. Deve haver. Dizem que sempre há. E agora que estou preparada vou esperar por ele, que é outro e não você. Que é alguém que um dia eu deva desamar, mas também pode ser alguém que eu vá amar para sempre.

 

 

 

 

 

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