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Precisamos de cura? 

Por Paula Garruth

14.07.2017

 

 

 

Todos os dias acordo sem a menor noção de onde está a chave do carro. Gasto tempo procurando coisas, isso quando não as perco definitivamente. E sem uma lista pronta sempre falta algum item, seja no supermercado ou na farmácia. E não são, por enquanto, os males da idade que chegaram. Sou assim desde criança: avoada sempre foi o adjetivo preferido da minha mãe em relação a mim.

 

Tenho certa dificuldade com esquerda e direita, horizontal e vertical e ainda consigo calçar errado os sapatos. Mas até então tudo isso era somente engraçado.

 

Depois de quarenta anos, jurando que eu era apenas uma pessoa distraída, descubro que tenho distúrbio de déficit de atenção. Desconfiada do diagnóstico, faço testes virtuais, leio sobre o assunto, assisto depoimentos de pessoas que, como eu, fazem da mesa de cabeceira seu porto seguro, com tudo e qualquer coisa ao alcance das mãos, sem a menor sintonia de organização ou noção de espaço, e vejo que sim, o médico tem mesmo razão. E que ele nunca descubra que usei o Google para confirmar o que ele já sabia, e não levo em conta os anos que ele passou na faculdade, o investimento em congressos e cursos, as noites sem dormir estudando para provas práticas em pesados livros raros e os preciosos anos da juventude que perdeu analisando cadáveres e testando ratos.

 

Tanta dedicação para trazer à tona a grande verdade: o mundo está doente. Pior: a terra é um grande hospício. Nas rodas de amigos as conversas giram em torno dos mais novos medicamentos que equilibram córtex e lóbulos cerebrais. Nem a antiga TPM escapa de uma poderosa tarja preta. Anda triste? Depressão. Exaltou-se? Bipolar. Não gostou do que viu no espelho? Borderline. Tá com medo? Pânico. E não para por aí. Cuidado com o que anda consumindo, porque você pode sofrer de compulsão ou dependência: drogas, compras, remédios e até café.

 

E se não for nada disso? Nunca usou drogas ilícitas, bebe socialmente, um cigarrinho só depois dos dois únicos cafezinhos do dia, armário impecável, gastos totalmente controlados e nunca um barraco nessa vida. Tá achando que escapou? Não. Lamento informar, mas você tem TOC. Vamos investigar que deve ter uma fórmula para curá-lo de toda essa disciplina.

 

E para cada nova doença um novo remédio. Para cada novo remédio uma contra-indicação, que requer atenção e outro remédio que não a deixe tão evidente. E vamos vivendo cada dia mais dependentes das pílulas e gotas porque somos obrigados a lembrar de tudo, a ter bom humor todos os dias, a sorrir quando a vida não anda assim tão fácil, a nos acharmos lindos e inteligentes. Controlamos quimicamente até a enfiada de pé na jaca no final de semana, porque ser perfeito é o que há, claro, sem exagero. Qualquer exaltação pode ter a prescrição daquela droga nova que acabou de ser descoberta na Europa por um grupo de doutores indianos e chegou aqui porque aquele médico que tá na moda e é mega antenado trouxe da sua última viagem. Uma revelação que quase te dá super poderes. É cara e te deixa com zero de libido, mas não importa, tá todo mundo tomando.

 

Em tempos onde a palavra crise anda em todas as manchetes, um olhar atencioso consegue captar: a cada dia mais farmácias, com remédios cada vez mais caros e cada vez mais cheias de pessoas buscando o que nunca irão encontrar.

 

Perdoe suas imperfeições e também as alheias, e divirta-se com os amigos nas praças e nos bares que ainda restam.

 

 

 

 

 

 

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