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Para onde vão as dores que não gritamos?

Por Paula Garruth

09.02.2018

 

 

 

As dores do dia-a-dia vão se acumulando enquanto ignoradas pela falta de tempo ou pela preguiça em lidarmos com ela. Mesmo os adeptos das longas conversas e calorosos desabafos não dão conta em colocar tudo para fora, e o choro vira nódulo, tumor ou ferida.

 

As pessoas perdem o emprego e não podem desesperar, afinal, as contas vão vencer e precisam ser pagas. O filho sai de casa, o amigo trai, o casamento acaba, o cachorro morre, a festa acaba, o carro quebra. Tirar um tempo para sofrer até esvaziar-se virou artigo de luxo, e como tratores, vamos passando por cima das agonias achando que um dia passa.

 

Mas aflição mal resolvida passa não. Ela se transforma em estranhas doenças, algumas até impronunciáveis, prontamente mascaradas pelas milagrosas pílulas receitadas em luxuosos e brancos consultórios, programados para nos tratar como loucos porque, de alguma forma, dói. E dói tanto que não dá mais para ignorar.

 

Xaropes, tabletes e comprimidos não curam a alma. Álcool não substitui amigos e o amor nunca poderá ser vendido em pó. O que cura é o aconchego de um colo querido no final de cada dia. É o ouvido que te escuta sem te julgar. O reconhecimento de todo seu esforço cura. O abraço que parece que desmonta, o prato preferido preparado com carinho, uma xícara de chocolate quente que chega na cama quando você está gripado. Perdoar o outro e a si, não ser refém das ditaduras de corpos e cabelos perfeitos e das dietas da moda. Fazer o que tem vontade. Entregue-se ao que te faz bem e nenhum mal será mais forte que você.

 

Do contrário, o caminho é frio. Esconder-se ou ignorar os sinais não é só perigoso, como pode ser fatal. Sejamos mais amigos, mais próximos, mais receptivos e mais sinceros. Sejamos melhores, para que o nosso caminho não seja como o do menino que foi da ponte ao asfalto, quando seu sofrimento era tanto e de tal tamanho que partir foi mais fácil que ficar. Desejo que fiquemos todos, e que isso seja mais leve do que tem sido até aqui.

 

 

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