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Reflexões Políticas

Nada mais assusta esse pessoal e nada mais conduz a dizerem a verdade que a visão que se lhes apresenta


Desconfio tenha sido Nicolau Maquiavel, Secretário florentino, quem disse que quando a gente quiser saber a "verdade efetiva da coisa", não deve procurar teóricos, doutores da lei ou doutores seja lá do que for. Devemos, ainda que, aqui e ali, com nojo, ouvir os que cometeram os malfeitos (expressão de Dilma) e estão a caminho da prisão. Nada mais assusta esse pessoal e nada mais conduz a dizerem a verdade que a visão que se lhes apresenta de sentir, nas madrugadas insones, que verão o sol nascer quadrado por muito tempo, pela simples aplicação da Justiça, no momento em que malfeitores maiores, maiores beneficiários antes e maiores condenados agora, não lhes podem vir em socorro e, ao contrário, demonizam-nos.

Se foi Maquiavel quem disse tais coisas, não comprovo com a prova nos autos, mas a comprovação da verdade do que ele teria dito, confirmei - mais uma vez - ser verdade, ao ler depoimento do antigo todo poderoso Antonio Palocci, que teve início de carreira brilhante como prefeito de Ribeirão Preto - SP, até afundar-se definitivamente quando ventos da Justiça começaram a bater nas portas do finado governo Lula.

Diz Palocci, em confissão inicial na Polícia Federal:

- "A corrupção é baixa em partidos que nunca foram do governo; os partidos se corrompem quando passam a integrar o governo; quanto maior o tempo de governo, maior o nível de corrupção; mesmo após deixarem o governo e passarem a compor a oposição, os partidos continuam com práticas corruptas".

Noutra ponta, o campeão da delação, graus acima de Palocci, o ex-deputado Roberto Jefferson, escreveu até livro sobre a matéria, e diz:

- "A motivação da corrupção é sempre econômica: agentes do Estado entram em conluio com agentes privados, para beneficiá-los, mediante o pagamento de propina...  Isso não acontece apenas na esfera federal; em cada uma das 5.652 prefeituras brasileiras, os prefeitos costumam aliciar vereadores por meio do loteamento da administração. A contrapartida é a leniência do controle exercido pelo Executivo sobre as áreas loteadas. Não é a toa que, segundo a Controladoria Geral da União, a ineficiência e a corrupção na gestão dos recursos públicos na esfera municipal são desastrosas. Isso também se deve ao excesso de cargos de confiança".

A partir dessas reflexões, convido a outras três: (a) ouvir quem sabe fazer é melhor que ler aquele que não fez?; (b) isso pode mexer no seu voto deste mês? e (c) entendeu os motivos pelos quais fiz e farei acertos em meus votos deste 2018? 

 

Frases Atuais de Maquiavel

O pior exemplo que pode haver é o de criar uma lei e não a cumprir, principalmente quando seu não cumprimento se deve àquele que a promulgou.

Quem quer ser obedecido deve saber comandar. E só sabe comandar quem encontra certa relação entre suas próprias qualidades e a dos que devem cumprir suas ordens.

O governante nunca poderá estar seguro se tiver a inimizade dos homens do povo, que são muitos; mas pode estar seguro se tiver contra si os poderosos, que são poucos.

É falsa a vitória que se obtém com armas alheias.

Quando não se tem certeza do que fazer, é impossível explicar o que se pensa, mas, quando se adota uma opinião firme e um plano de ação, é fácil encontrar palavras para justificá-lo.

Um homem prudente deve tomar sempre a via trilhada por homens ilustres, que foram exemplos excelentíssimos a serem imitados.

Todo governante deseja ser tido por piedoso, não por cruel, no entanto, ele deve estar atento para não usar mal a piedade.

Os homens elogiam o passado e se queixam do presente, quase sempre sem razão.

A primeira opinião que se pode fazer acerca da mente de um governante é observar os homens que o circundam.

O direito mais útil e necessário que se pode dar ao cidadão é o de ele poder acusar diante do povo, ou de um magistrado ou tribunal, os cidadãos que tenham atentado contra essa liberdade.

(Retirei essas frases do livro "Maquiavel Essencial", pensamentos de Maquiavel resgatados por Wagner Barreira. Fiz algumas adaptações à tradução do autor e recomento - muito - o livro).

 

Das Urnas... eletrônicas

O "Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio" é livro escrito por Nicolau Maquiavel. Muitos estudiosos - a unanimidade, talvez - considera-o superior ao conhecidíssimo "O Príncipe", que faz a cabeça de praticamente todos os políticos.

Maquiavel, Secretário (Ministro) de Florença, percorreu a Europa Ocidental como embaixador do governo. Exímio escritor e não menor observador dos fatos, das gentes e da política, por onde passou aprontou relatórios de grande utilidade para os governantes, com lições ainda para os dias de hoje. Não se sabe de outro profissional com perfil tão importante nesse trabalho.

Voraz leitor de História, os livros abarrotavam a casa dos pais, pode, durante o percurso de sua vida de quase 60 anos, fazer não só observações, como poderosas comparações sobre o que acontecia em sua terra e na dos outros, seja na sua contemporaneidade, seja nos séculos que lhe antecederam. Assim, trouxe importantes lições sobre como se comportar para manter o governo e se manter no governo, ao examinar e confrontar situações mais ou menos idênticas acontecidas nos países vizinhos e no passado.

Quem bem observa o que acontece noutros locais e nos tempos passados, está reunindo cabedal imenso de experiências vividas que são, para quem aproveitar, ótima maneira de não ser surpreendido pela eventualidade, pelo desconhecido, pela sorte ou, principalmente, pelo azar, que é, quase sempre, o desconhecimento das coisas que deveria saber.

Toda essa peroração, ao tempo em que permite levar ao leitor algo desse monstro sagrado da História e da Política, que deve ser permanente lido por quem não quer ser enganado, também permite anotação sobre urnas eletrônicas, que faço, não pelo método da segurança da programação delas, mas pela comparação do que acontece (ou não acontece) noutros países democráticos avançados, quando em eleições.

Não falo de segurança, até porque urna pode ser mais ou menos segura; geralmente é segura. Mas constata-se com facilidade que nenhuma democracia moderna usa ou usou urnas eletrônicas fechadas, que não permitem conferência posterior do voto. Democracias modernas se lixam para a tecnologia empregada em urnas eletrônicas; o que querem é que o voto seja contado um a um, na frente dos cidadãos. Ao inferno a parafernália tecnológica e todo respeito aos tradicionais olhares humanos vigilantes, desconfiados olhares humanos.

Não dou importância suprema à violabilidade ou inviolabilidade da urna. Isso não tem importância quando se tem em vista a representatividade popular e não a mera segurança tecnológica. Não cabe colocar tecnologia acima da fiscalização pessoal do cidadão. Utilizando do método de Maquiavel posso dizer: se as grandes democracias usam a velha e tradicional contagem manual de votos, as urnas eletrônicas brasileiras podem não ser mais que brinquedos tecnológicos que não trazem confiança. Tecnologia não substitui pessoas; cidadãos querem tocar as coisas com a mão.

(Crônica que publiquei às vésperas das eleições de 2014 - Nada a retificar em 2018).


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