Jornal Fato

Cachoeiro de Itapemirim, ES, sexta, 24 outubro 2014.

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Amor, paixão e loucura

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O que define a paixão? Rosa Montero, articulista do jornal espanhol “El País”, autora do livro “Paixões”, afirma que a essência é a alienação. O apaixonado sai de si mesmo e se perde no outro, naquilo que imagina do outro. Para o ensaísta suíço Denis de Rougemont em “História do amor no ocidente”: O amor feliz não tem história. Só o amor ameaçado é digno de um romance. A paixão tem uma força alienante. Zeus, o deus de todos os deuses grego, foi condenado por Afrodite, deusa do amor carnal e etéreo, a perseguir ninfas e mulheres mortais, e assim, muitas vezes, cair no ridículo. O amor é representado por um menino nu, porque é uma emoção que não se pode ocultar. Cupido, na mitologia, apresenta-se com venda nos olhos, porque o amor não percebe os defeitos do outro. O amor é cego. A paixão cega, só o sentimento amoroso ilumina. Na idade média (séc. XII e XIII) surgiu o amor cortês e a impossibilidade da relação. Duas lendas do amor impossível: Tristão e Isolda e Lancelot e a rainha Guinevere. Antes disso, com o primeiro casal da criação, Adão se declarava para Eva, e dizia: “Onde Eva estiver lá é o paraíso”. Bom, se não disse, deveria ter dito. Santo Agostinho escreveu: Paixão é uma fantasia, uma alucinação, a pessoa amada é apenas uma desculpa que damos para alcançar a emoção do apaixonar-se. Na realidade, pouco importa quem amamos. O que o apaixonado ama é o amor. Desidério Erasmo (Erasmo de Roterdã – 1466-1536) escreveu Elogio à Loucura: A loucura torna as mulheres amáveis. Eles prometem tudo a elas e em troca de quê? Do prazer. Mas elas só o concedem pela loucura. Para a psicanalista Betty Milan a busca do ser humano é pela completude. Cita Lacan: O amor é o desejo impossível de ser um quando há dois. O mito da completude inicia-se na mitologia grega: Éramos um só. Zeus nos cortou pela metade com receio da nossa força. Desde então a busca de nos tornarmos um só. Um desejo impossível. O amante deve acreditar na liberdade do amado. Deve evitar o egoísmo. No cinema e na literatura muito se falou sobre o amor. Livros clássicos: Madame Bovary (Gustavo Flaubert); Lolita (Vladimir Nabokov); Ana Karênina (Tostoi) e Dom Casmurro (Machado de Assis). O cinema, nos anos 70 do século passado, marcou uma geração com Love Story e uma frase se imortalizou: Amar é não ter que pedir perdão. Isto é, quem ama cuida e evita magoar.

A neurociência e neurobiologia começam a desvendar as transformações cerebrais que ocorrem em uma pessoa apaixonada. A química, a coisa de pele, o mistério de um mundo maravilhoso e invisível, que os poetas descrevem tão bem, em um futuro podem ser decifrados e uma pílula do amor pode matar a beleza da paixão. A pílula, talvez, possa ajudar nos comportamentos e ciúmes doentios e evitar os crimes passionais. Enquanto isso fico com os sonetos. De Camões, pai dos poetas da língua portuguesa: “Amor é um fogo que arde sem se ver; / é dor que desatina sem doer...” Do paulista Vicente de Carvalho: “Não me culpeis a mim de amar-vos tanto, / mas a vós mesma e à vossa formosura, / pois se vos aborrece, me tortura / ver-me cativo assim de vosso encanto...”

 

Sergio Damião Sant´Anna Moraes

Amor, paixão e loucura