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Cachoeiro de Itapemirim, ES, sexta, 18 abril 2014.

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A verdadeira ética cristã

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"A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade", Immanuel Kant

por Roney Moraes

A ética cristã brasileira é marcada por uma intensa ambigüidade: o reconhecimento de que devem ser “diferentes” é acompanhado pelo conservadorismo moral nos âmbitos social e político, que não permite fazer ir muito além do que se costuma chamar de testemunho pessoal.

Cautelosos, os cristãos hoje são sinônimos de honestos, os convertidos do pecado do mundo para uma vida de santidade plena, mesmo assim pecam, afinal, quem não peca? Só Jesus Cristo.

De acordo com o texto “Evangélicos e a ética brasileira”, não é possível pensar em ética cristã de forma desvinculada da teologia: “a ética cristã é fundamentalmente a exploração da importância prática da visão teológica revelada na narrativa bíblica.” Sem teologia, a ética das comunidades se dilui em busca de códigos de conduta diferenciadores da sociedade não-evangélica (...)”, isso, de fato, seria verdade, se englobado todos os mecanismos evangélicos ( digo também os católicos carismáticos e os teólogos da libertação, que pregam o ecumenismo e o diálogo inter-religioso).

O papel das igrejas evangélicas no processo eleitoral também vem crescendo no país. “O grande risco é confundir a missão (ética) com um projeto político-partidário específico, o que rompe com a tensão escatológica própria ao cristianismo, e subordina a teologia à ideologia”.

Para o autor Júlio Paulo Tavares Zabatiero, esse risco não está distante, é perceptível em discursos e ações de certas instituições denominacionais que pendem para uma atuação política ao estilo de cristandade. “Alcançar o poder para se beneficiar e para fazer do Brasil um país evangélico, fazer da população brasileira uma que siga os princípios de conduta considerados evangélicos”.

Como preparar a população não cristã para rejeitar os grandes vícios e pecados sociais? Esse seria o desafio. Segundo as doutrinas mais conservadoras não seriam mais aceitos: divórcio, alcoolismo, homossexualidade e os demais pecados sexuais, corrupção. Em geral, os evangélicos não têm um projeto para o Brasil, como também não o tem a população brasileira como um todo, nem os detentores do poder estatal de plantão. Por um lado, isso ajuda a diluir o modelo de cristandade. Por outro, coloca todos na dependência de projetos políticos partidários sem identificação explícita com uma visão cristã da vida da nação.

O principal desafio que confronta todos os pensadores da religião é a construção de projeto, o qual precisa ser teológico, e não ideológico.

Para uma ética transformadora, fiel à tradição, ela pode ser adequadamente entendida e descrita como uma ética da liberdade em amor.

Conforme o autor Alderi Souza de Matos, a palavra “ética” vem do grego ethos e se refere aos costumes ou práticas que são aprovados por uma cultura. A ética é a ciência da moral ou dos valores e tem a ver com as normas sob as quais o indivíduo e a sociedade vivem. Essas normas podem variar grandemente de uma cultura para outra e dependem da fonte de autoridade que lhes serve de fundamento.

“A ética cristã tem elementos distintivos em relação a outros sistemas. O teólogo Emil Brunner declarou que a ética cristã é a ciência da conduta humana que se determina pela conduta divina. Os fundamentos da ética cristã encontram-se nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, entendidas como a revelação especial de Deus aos seres humanos”, ressalta.

De acordo com Alderi, a ética é importante para a vida diária do cristão. A cada momento precisamos tomar decisões que afetam a outros e a nós mesmos. A ética cristã ajuda as pessoas a encarar seus valores e deveres de uma perspectiva correta, a perspectiva de Deus. Ela mostra ao ser humano o quanto está distante dos alvos de Deus para a sua vida, mas o ajuda a progredir em direção esse ideal.

Se fosse possível declarar em uma só sentença a totalidade do dever social e moral do ser humano, poderíamos fazê-lo com as palavras de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Mt 22, 37 e 39)

 

Roney Argeu Moraes é psicanalista, jornalista, e teólogo, mestre em Filosofia da Religião pelo Instituto Teológico Gamaliel (ITG), membro da Associação Brasileira de Filosofia e Psicanálise (Abrafp) e doutorando em Psicologia Pastoral pela Faculdade de Teologia e Filosofia Nacional.

 

 

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