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Revelar a idade é temerário. Mulher então? Fora de cogitação


Revelar a idade é temerário. Mulher então? Fora de cogitação. Tive um amado tio que, aos 35 anos, foi vítima de uma violência gratuita e se adiantou na partida, deixando saudades que superam 23 anos. Dele restaram muitas boas lembranças, mas uma marcou, pois, sempre que ele ouvia alguém reclamando dos males da idade, respondia:

- Jamais reclamarei, ficar velho é sinal de que cheguei lá...

Mas não chegou. Ironia, crueldade e saudades eternas deixou nos corações de muitos, inclusive no meu. Na época eu tinha 18 anos, sofri, ... Depois perdi outras pessoas amadas, chorei, ..., mas a vida seguiu. E segue sob as bênçãos de Deus.

No último domingo, dia 09 de setembro, completei 4.1. Agora sigo no "enta" até o fim. Pensar que chegarei nos cem anos é demais para mim, mas, quem sabe? Só Deus...

O fato é que estou viva, saudável e, no possível, feliz. Tenho cabelos brancos surgindo aqui e acolá; algumas dores antes inexistentes; o corpo mudou; traços começaram a surgir na face. Isso me incomoda, não sou hipócrita, mas tudo bem! Ainda estou a caminho, o que me satisfaz.

Na alma a mesma meninice da juventude e outras tantas ansiedades; lembranças boas e más, mas, na mente, uma maturidade da qual não abro mão. Não abro mesmo! Nem se isso me devolvesse o físico e o vigor que não mais voltarão. Ademais, muitos sonhos ainda existem a serem realizados.

Se pudesse escolher, ainda assim, teria 41 anos, pois, embora conflitos outros existam, estes são menores que os havidos nos meus 15 anos e, quiçá, maiores que os que experimentarei mais adiante. Isso porque passamos a dar valor ao que de fato é importante.

Hoje, não me importo tanto com o que dizem ou pensam. Não acho que devo ser amada ou admirada por todos. De algum modo, saí do centro da minha vida, mas, contraditoriamente, sou, sem ignorar o sofrimento alheio, mais eu. Reconheço em mim limitações e defeitos a serem superados, mas também percebo qualidades antes não enxergadas.

No "enta", para alguns "aguenta", reconheço os que, de fato, me amam. E ADORO estar junto ao meu esposo, filhos, familiares e amigos. Estes sim me conhecem e, apesar dos defeitos que a convivência revela, me amam. Então sei que estou no rumo certo, o que é bom. Muito bom!!!

Enquanto para alguns estou na fase da decadência, para mim, a alma ainda me fará alçar grandes voos, mas não sozinha. Afinal, aos 41 anos, já dá para perceber que algumas pessoas estarão sempre por perto.

Com 4.1 sinto-me grata a Deus por amar, por ser amada e por poder escrever. Afinal, já que não tenho asas, já que minha adrenalina é baixa, a escrita é meu instrumento de voo. Por ela chego a lugares nunca antes imaginados e às vezes, sem saber, por ela ajudo pessoas que jamais conhecerei a alçarem seus voos também.

Escrever liberta a alma e, pouco importa a idade, pois, por minhas escritas, sempre estarei aqui, seja correndo, voando, sonhando ou seja criticando o que me agride, eternizada por minhas palavras e lembrada por minhas atitudes que, espero, mais positivas.

Não é à toa que Clarice Lispector, com quem não me atrevo a comparar, que morreu no ano em que eu nasci, ainda vive por suas escritas. Inclusive, faço minha suas palavras:

"Em cada palavra pulsa um coração. Escrever é tal procura de íntima veracidade de vida.  Vida que me perturba e deixa o meu próprio coração trêmulo sofrendo a incalculável, dor que parece ser necessária ao meu amadurecimento - amadurecimento? Até agora vivi sem ele!" (Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida')

Assim, todo agradecimento a Deus e aos meus pais, todo carinho aos que me querem bem. Se alguém me deseja mal, amém. Mas parabéns para mim.

 

Katiuscia Oliveira de Souza Marins

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Katiuscia Marins Colunista/Jornal Fato Advogada e professora

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