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Há algumas semanas estive impossibilitada de andar...


Há algumas semanas estive impossibilitada de andar. E não só de andar. Uma queda em uma escada molhada me rendeu dias de repouso em uma única posição, meio sentada, porque sentar, deitar ou ficar em pé eram tarefas impossíveis, além de muitos remédios e inúmeras sessões de fisioterapia. Uma simples visita a uma amiga interrompeu meus planos do final de semana e me tirou de circulação por algum tempo. 

Trágico? Não. Poderia ter sido pior, e não foi. Mais do que isso. Eu poderia, diante dos impedimentos, ter passado por muitas necessidades. Mas não passei. Em todos esses dias eu não estive sozinha nem por um minuto, e, obviamente, gratidão é uma coisa que sempre nos faz refletir.

Não importa quantos amigos você tenha, quem te ajuda são sempre os mesmos. Um número limitado diante da imensidão que por vezes imaginamos. Não importa o tamanho da sua família, poucos, bem poucos, vão se importar quando você REALMENTE precisa. E, como uma coisa puxa a outra, essas circunstâncias nos provam, de maneira mais contundente, como é ilusória a vida dentro de uma rede social.

Há várias formas de se ter seguidores, porque é fácil conhecer muita gente, principalmente no mundo globalizado. E não é só. Dia desses me disseram que você pode comprar seguidores. Isso mesmo. Você pode pagar para ser conhecido no mundo digital. Juro, não tô brincando. Paga para ter a sensação de que é querido e admirado por pessoas que nunca viu na vida. Mas digamos que essa não seja uma possibilidade. Que realmente as pessoas espiam suas fotos e postagens espontaneamente. Posso te jurar que, independentemente de quantos "likes", comentários e compartilhamentos sua publicação alcance, nenhum dos seus fãs incondicionais vão aparecer quando você precisar de verdade. Talvez um ou, sendo bem otimista, dois.

E quando eu falo de ajuda, não é só alguém que te escute não. Isso já é difícil, porém mais difícil ainda é alguém que te ajude a deitar e levantar, a ir ao banheiro, que controle os horários dos seus remédios, que te faça ou compre uma comida aconchegante, que massageie seus pés ou que te compre um pão quentinho. Não falo de ajuda pra contar os problemas. Falo de ajuda quando o problema está relacionado com sua saúde, e o auxílio não pode esperar. Não pode ser na mesa de bar, não pode ter música alta e, geralmente, não tem glamour em cuidar de quem está doente.

Nessas horas não são os números que contam. É o amor que você conseguiu despertar em quem, de alguma forma, rodeia sua via. Só quem te ama de verdade aparece nessas horas. Eu troco todas as curtidas e coleguinhas virtuais do mundo pelas xícaras de café cheias de amor que tive na mão quando não pude fazer. Não se engane. Quem te ama encontrará uma forma de estar por perto, de forma real, solidária e afetiva.


Paula Garruth Colunista

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