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Amor sem fim

Em um dos encontros de Silvio com a Márcia, ele revelou após momentos de carícias e longos beijos...


Em um dos encontros de Silvio com a Márcia, ele revelou após momentos de carícias e longos beijos: "Eu te amei antes de você existir. Antes mesmo de conhecer-te." Com a frase ele se surpreendia, parecia absurda aquela revelação. Como pode, nas relações humanas, alguém amar sem conhecer. Mais ainda em uma paixão amorosa onde há necessidade do contato físico para se concretizar. Mas, o sentimento era diferente do que via ou lia. Algo inexplicável. Por isso, a declaração da paixão. No momento das lembranças da declaração à sua amada, anos antes daquele instante, encontrava-se sozinho. Encontrava-se isolado do mundo. Encontrava-se em seu próprio mundo. Era fim de tarde de um sábado. Do alto do prédio via a cidade. Observava o caminhar das pessoas: homens lentos como ele. Observava o vai e vem de carros e bicicletas. A tarde findava e a noite se anunciava. Progressivamente os faróis iluminavam ruas. Clareavam avenidas e asfaltos cobertos pela água da chuva e a solidão dos transeuntes. Na escuridão em que se achava, permaneceu por um longo tempo. Não se animava com o que assistia. Muito menos com o que estava por vir. Era um homem lento, em fim de vida. Lembrava a frase proferida anos antes: Seria possível amar alguém antes de ela existir? Em seu pragmatismo, o amor só seria possível perante algo físico: um corpo, um objeto, uma posse...

No dia do pronunciamento da frase, encontrava-se vulnerável. O desejo era imenso. As carícias foram intensas. A diferença de idades também. Ela jovem; ele em idade avançada de vida. Apesar de jovial, o olhar de tristeza traía o sorriso que ela apresentava. Um olhar triste pela situação em que viviam. Encontros fortuitos, sem garantia de continuação e reencontros. Amores roubados de outras pessoas. Não possuíam direitos, nem liberdade da vivência de seus desejos. Após a revelação do amor antes da existência, Silvio contou: "Quando jovem, em um dos meus carnavais, em Bloco Carnavalesco que corria a cidade, vestido de Pierrot, conheci uma adolescente. Era uma carnavalesca como eu. Pele branca, branca como a neve. Cabelos longos escorriam pelo dorso. Uma máscara cobria parte da face, deixava à mostra um olhar penetrante. Olhos claros. O restante da fantasia moldava um corpo perfeito. Foi apenas um olhar, um toque de mãos, um beijo rápido. Um encontro de lábios que despertou a paixão. Guardei em memória o instante, nunca esqueci. Um momento mágico da minha adolescência. Até hoje tenho dúvidas se existiu." Prosseguiu no relato, quando te vi, na sala de espera de uma Clínica Médica, a lembrança retornou. Amei novamente. A descrição foi interrompida por um longo beijo e abraços.

Ele seguia contando. Você era tudo que esperava. A idade em que nos encontramos, as nossas diferenças de tempos de vidas, impede que você seja a adolescente do meu carnaval. Ainda assim, sinto que te amei antes de te conhecer. Hoje, tenho certeza. Sinto tê-la encontrado tão tarde na vida. Em fim de minha vida e você iniciando a sua. Ela ouvia em silêncio. Silenciosamente chorava. As lágrimas confirmavam a impossibilidade da realização do amor. Minutos depois, despediram-se. Tal qual o Pierrot despedindo-se da adolescente carnavalesca. Ele continuou sozinho, com suas paixões adormecidas.

 

Sergio Damião Sant'Anna Moraes

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Sergio Damião Médico e cronista

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