Saudades - Jornal Fato
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Saudades


Pensei na saudade. Lembrei-me deste sentimento que evitamos pensar. Saudade dói. A dor não é física. Não tem ponto de localização no corpo. Ela se apodera do pensamento, da mente... Invade o presente e parece querer se perpetuar no futuro. A angústia é imensa. O medo também. Medo de sofrer. Chega devagar e de repente se agiganta e ocupa todos os espaços. Boas ou ruins as lembranças sempre voltarão. Podemos escondê-las temporariamente. Logo, inundam nossos pensamentos, derramam reações em bilhões de neurônios. Atiçam o cérebro em reações bioquímicas diversas. Coisas passadas e vividas são repassadas em sinapses cerebrais. Escondidas em labirintos cerebrais, como flashes, logo ficam à mostra. Em total liberdade. Saudade pode ser nome de pássaro da família dos Contígidas, encontrados nas grandes alturas da Serra do Mar. Pode ser uma planta da família das Dipsacáseas, também chamadas de escabiosa, perpétua e suspiro. Pode ser uma cantiga da terra entoada por marujos em alto mar. Uma cantiga de um velho vaqueiro do nordeste brasileiro residindo na zona leste de São Paulo e trabalhando como aprendiz de pedreiro, e em fim de tarde, entoando as canções das caatingas, enquanto lembra as suas andanças.  Pode ser as lágrimas da face de um estudante em uma estação rodoviária ao se despedir de seus pais em fim de tarde de domingo de um final de semana prolongado. Saudade é a casa vazia na ausência dos filhos que se foram embora para terras distantes.

Tem dias que a saudade me faz esquecer o que devo esquecer. Pois a verdadeira saudade não permite o esquecimento do ser amado, não enfraquece o desejo, não abranda a paixão. Nem mesmo o tempo ou a distância acaba a verdadeira paixão. O que acaba a paixão é o não querer. Saudade é a prova que tudo que se viveu: valeu a pena. Mas, o que deseja e de que é feita a saudade? Ela é a lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas. Acompanha-se do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las. É nostalgia pela ausência de alguém que nos é muito querido. É dolorida. É chorosa. É amarga. Não é uma dor física. Ela se apresenta na alma. É dor progressiva, aumenta com a consciência da impossibilidade da concretização dos desejos. É a consciência da falta daquilo que já se foi. Saudade é morrer um pouco em plena vida; é envelhecer a luz do dia; é a tristeza de se ver lento, isolado e sem força para se levantar. É se deixar ficar em poltrona de uma sala de estar, sem nenhum desejo de se movimentar.

Sinto saudade do meu pai; sinto saudade da inocência da minha infância; sinto saudade da alegria da minha adolescência; sinto saudade do Bernardo; sinto saudade da memória da minha mãe; sinto saudade das coisas que vivi; sinto saudade das coisas que não tive coragem de viver; sinto saudade das coisas que nunca poderei viver; sinto saudade das coisas que deixarei de ver e conhecer. Sinto saudade das coisas que nasciam e cresciam em minha pele, corriam em meu sangue, caminhavam por todo meu corpo, arrepiavam meus pelos, agitavam as batidas do meu coração e inundavam o meu cérebro. Sinto saudade dos sentimentos vibrantes, que alternavam as emoções, da intensidade de paixões que pervertiam a razão. Sinto saudades...

 

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Sergio Damião Médico e cronista

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