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A rapadura é dura, mas é doce. Esse foi o olhar de uma amiga, que prefere ver o lado bom da vida


A rapadura é dura, mas é doce. Esse foi o olhar de uma amiga, que prefere ver o lado bom da vida, ao se referir a esse doce de origem açoriana ou canária, de sabor de açúcar mascavo em pequenos tijolos que facilitavam o transporte do produto para uso individual. Tabletes que ainda hoje são a forma mais comum.

E quem gosta de rapadura sabe o quanto a maioria é dura e difícil de partir (para minha surpresa, meu irmão enviou algumas recentemente agradavelmente macias), o que levou ao dito popular de que ela é doce, mas não é mole. Ou seja, para deliciar-se é preciso ter boa faca e dentes fortes.

Entendi a visão otimista da minha amiga. Em todas as fases da vida, seremos atropelados por adversidades em algum momento. Superá-las dependerá do nosso olhar sobre o problema. Ou superamos, ou ele vence de dez a zero. Mas a vida é bela, então vale vencer a dureza que nos surpreenderá em algum ponto do caminho.

Outra amiga que não via nem sabia notícias há décadas, no mesmo dia fez outro comentário que também me chamou a atenção. Estávamos nós falando de cabelos, e alguém comentou que pretendia cortá-lo bem curtinho. "Como o seu, Fulana". E eis que a colega citada nos surpreende com a maior doçura.

"Meu cabelo (bem rente ao couro cabeludo) não está curto. Está grande. Estou na remissão de um câncer e é a primeira vez, depois de muitos anos, que os vejo tão lindos. Já tinha me esquecido o que é ter cabelos". Nos olhamos surpresas e desconcertadas, mas ela continuou alegre nos contando das lutas que enfrentara no longo tempo em que nos distanciamos, pelas circunstâncias da vida.

Sem amargura, mas com alegria e gratidão por estar viva e podendo interagir conosco. Afinal, nossas vidas estarão eternamente ligadas porque estudávamos juntas, e éramos felizes, quando não tínhamos boletos a pagar nem preocupações além da formatura na universidade. Cheias de sonhos dos altos voos que pretendíamos alçar.

O certo é que todos voamos. Em alguns momentos, de asas quebradas e contra o vento, mas resistimos e chegamos até aqui. Carregando nossas marcas e nossas histórias, conscientes de que uma não é igual à outra. São enredos e roteiros plurais. Somos diferentes. E nas nossas diferenças, pediria uma coisa a todos, se me permitem os queridos amigos de quase a vida toda (espero que para sempre). Tenham um novo olhar sobre os problemas e as lutas.

Sabem por que? Simplesmente porque a vida não é, nunca foi e nunca será um mar de rosas. Os espinhos nos farão sangrar, mas é preciso seguir em frente sentindo o perfume das rosas na medida em que as feridas são curadas. Focar nelas levará fatalmente à gangrena que apodrece corpo, alma e espírito e nos adoece.  Porque tudo passa. Aprendo isso todos os dias. E quanto tenho me fortalecido na tempestade, que em alguns momentos encharcou a minha vida de tristeza.

Assim é o mundo. Pretendo encará-lo, e aos seus percalços, de frente e com otimismo contagiante que torne o meu mundo, e o dos que me cercam, bem mais doce e transbordante de afeto. Bom demais ter amigas que nos ensinam a olhar além do óbvio. E que a vida nos surpreenda.


Anete Lacerda Jornalista

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