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Pedaços de mim

Não sou intelectual. Nunca fui


Não sou intelectual. Nunca fui. Nem faço questão de posar de. Mas aprendo com os amigos que respiram e transpiram a boa literatura dos melhores autores. Eles não fazem de conta. Não são cultos a partir de fragmentos da internet de autores que nunca leram.

Eles respiram cultura e têm intimidade real com a literatura, sem arrogância nem deslumbramento, como acontece com muitos pseudointelectuais. Se pudessem, certamente assinariam um manifesto pelo porte obrigatório de livros desde a mais tenra idade, na esperança de que a poesia livrasse o mundo do obscurantismo que nos assola, o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto, tão atual.

Então, se não sou intelectual raiz, também não sou de todo ignorante nem uma fraude, mas assumo. Sou uma repetidora de textos que me chegam às mãos e aos olhos a partir de compartilhamentos dos amigos. E uma autora que leio fragmentos é Adélia Prado, que, como define uma amiga muito querida, trata em seus textos sobre a velhice com mansidão e poesia. E pergunta: nos dias de hoje, quem se dá a esse luxo?

Preciso confessar que envelhecer me assusta. As limitações impostas pela passagem impiedosa e inevitável do tempo me causam arrepios. Quero, sempre mais e a qualquer tempo, estar firme e forte, mesmo diante da velhice líquida e certa. Mas quero tirar poesia desse processo. 

Quero manter o brilho no olhar (acredito que o brilho do olhar reflete a alegria da alma), os sonhos e os projetos, mesmo que a idade avance para o campo das impossibilidades. Existem coisas que só a experiência e a maturidade permitem. É é nessa direção que quero caminhar, olhando firme para o futuro. É o que já escrevi. Tenho mania de ter fé na vida e sempre acho que tudo vai melhorar. Com poesia e afeto.  Então, com esse objetivo, compartilho uma dose de Adélia Prado.

"Páscoa

Velhice é um modo de sentir frio que me assalta/ e uma certa acidez/O modo de um cachorro enrodilhar-se/ quando a casa se apaga e as pessoas se / deitam. Divido o dia em três partes:/ a primeira pra olhar retratos./ A segunda pra olhar espelhos, /a última e maior delas, pra chorar./ Eu, que fui louca lírica, não estou pictural. /Peço a Deus,/ em socorro da minha fraqueza, / abrevie esses dias e me conceda um rosto/ de velha mãe cansada, de avó boa,/não me importo. Aspiro mesmo/ com impaciência e dor./ Porque sempre há  quem diga/ no meio da minha alegria: /'põe o agasalho' / ' tens coragem?' / ' por que não vais de óculos?' / Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó, / quero o que desse modo é doce, /o que de mim diga: assim é. / Pra eu parar de temer e posar para um retrato, / ganhar uma poesia em pergaminho."


Anete Lacerda Jornalista

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