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Quer que desenhe?

A mulher sempre é rotulada, e claro que pejorativamente


Na cabeça da maioria absoluta dos homens, e infelizmente também de algumas mulheres, a mulher é abusada porque deu mole. É estuprada porque estava na rua fora de hora, usou saia curta ou roupa decotada e finalmente porque ousou frequentar espaços de lazer desacompanhada de um homem.

Isso foi brilhantemente abordado pela amiga Paulinha Garruth recentemente. A mulher sempre é rotulada, e claro que pejorativamente. Pessoas com esse perfil também dizem que se a mulher sofreu violência doméstica é porque fez alguma coisa errada. Não fez a comida, não lavou a roupa, não limpou a casa nem cumpriu outras tarefas atribuídas unicamente à ela, como se as atividades da casa e a responsabilidade com os filhos fossem exclusividade feminina.

E quando a gente pensa que as coisas não podem piorar, é esbofeteada pela impiedosa realidade que subjuga, julga, condena e mata mulheres por questão de gênero. Que abusa e importuna sexualmente porque em pleno Século XXI ainda somos vistas como objeto. E esta semana, como tantas outras, não foi fácil para as mulheres. Os casos de violência e estupro são muitos. Difícil enumerá-los. Mas vamos a alguns.

Em Goiânia, uma paciente de 21 anos internada na UTI denunciou que teria sido vítima de estupro, praticado por um técnico de enfermagem. Essa paciente morreu, mas não pela violência, garante o hospital, que demitiu o abusador. Então, para os que apontam comportamento e roupa como gatilho para o abuso, está na hora de rever conceitos. A mulher é violentada e agredida por questão de gênero.

No Espírito Santo, um cardiologista foi acusado por uma jovem de 18 anos de tê-la tentado beijar a força. Como acontece quase sempre, outras denúncias foram aparecendo e muitas mulheres admitiram, mesmo sem mostrar o rosto, que hoje sofrem de forte depressão em função da importunação sexual praticada pelo mesmo médico. Um dentista também foi denunciado por várias clientes.

Foi preciso uma jovem tomar a coragem e quebrar o silêncio. Talvez as mordaças ainda não tenham sido capazes de aprisionar a voz de quem nasceu em tempo de mulheres empodeiradas e resistentes. Com coragem para dar a cara a tapa, pouco preocupadas com o que os outros vão pensar. Por mais mulheres de coragem e livres de mordaças.

Uma das vítimas do médico contou que relatou ao marido e à família no mesmo dia, mas que ninguém acreditou nela. "Alguma coisa você fez. Estava com que roupa?". O marido, inclusive, teria ficado sem falar com ela por vários dias. Mais uma vez, de vítima a ré.

Como sobreviver com dignidade e o mínimo de sanidade quando o assédio e abuso parte de homens influentes e acima de qualquer suspeita? A gente sobrevive compartilhando, tomando atitude, conscientizando que a culpa nunca é da vítima, unindo esforços e soltando a voz. Para denunciar em letras garrafais todo e qualquer tipo de abuso.

A qualquer tempo, em qualquer lugar. Inclusive dentro da igreja, já que outra matéria exibida na última quarta-feira falava de um pastor de Minas Gerais que engravidava as fiéis e as obrigava a abortar. E ao contrário do que sugerem os machistas, gritamos para exigir respeito. As feministas não são mulheres mal amadas. Elas não querem estar acima dos homens.

Queremos igualdade de direitos e oportunidades. Nós feministas gostam de sexo, de afeto, de nos cuidar, de estudar, de estar antenadas, mesmo que algumas de nós se dê o direito de abrir mão de muitas dessas coisas. Ainda hoje é preciso avisar: lugar da mulher é onde ela quiser. Sozinha ou acompanhada. Tá bom para você? Até quando será preciso desenhar?


Anete Lacerda Jornalista

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