Prefeito abre Bienal com carta a Rubem Braga - Jornal Fato
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Prefeito abre Bienal com carta a Rubem Braga

Na missiva, Victor fez comparações de sua trajetória com a do cronista e deu, também, recados políticos


O prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Victor Coelho surpreendeu na abertura da Bienal Rubem Braga, na noite de terça-feira (15), na Praça de Fátima. Quando todos aguardavam discurso na solenidade de abertura, apareceu com crônica, em forma de carta, endereçada ao cronista maior do Brasil. E, nela, fez comparações de sua trajetória com a dele e deu, também, recados políticos.

Na missiva, Victor confessa que apenas um pouco tarde conheceu mais profundamente a obra de Rubem, justamente na primeira Bienal, em 2006. Antes, ele já elogiara os secretários de Cultura de gestões anteriores, que, reconhece, foram fundamentais para que o evento se consolidasse.

"Fomos apresentados um pouco tarde, mas a Bienal tem o papel de mudar essa história. A educação e arte de mãos dadas, têm plantado essa sementinha em nossas crianças e, por que não dizer? Em adultos também".

As coincidências na trajetória de ambos foram destacadas pelo prefeito. Entre elas, a de que tem sobrenome da mãe de Rubem (Rachel Coelho Braga) seja o mesmo seu. O pai de Victor (José Affonso Coelho, morto em 2012), assim, como o do cronista, foi dono de jornal (Diário Capixaba). Francisco Braga, patriarca da família, foi proprietário do jornal Correio do Sul e o primeiro prefeito de Cachoeiro. "E olha em que posição estou hoje, dando boas-vindas a todos, num evento que leva seu nome".

As casas das duas famílias ficam na mesma rua. E Victor menciona, ainda, que o PSB, partido ao qual está filiado, teve ajuda de Rubem Braga em sua fundação. 

Uma das polêmicas relacionadas à edição deste ano da feira literária também foi lembrada na carta. O corte de uma árvore na Praça de Fátima para a instalação das tendas que ocupam o lugar, procedimento que não teria sido autorizado pela Prefeitura, provocou grande repercussão nas redes sociais.

"Rubem amava sua terra como nenhum outro cachoeirense e a defendia com unhas de dentes de quem falasse mal de sua Atenas Capixaba, mesmo com seus problemas. Eu tenho muito a aprender com você. A valorizar cada cantinho dessa terra. Não murmurar por uma árvore cortada, mas enxergar vida nas milhares que já foram plantadas", criticou.  E continua: "ah se todos fossem iguais a você. Se todos vendessem, com sua alegria Cachoeiro em prosa, verso, crônica e canção, talvez não seríamos uma cidade tão secreta assim".

 

Confira o texto da carta na íntegra

 

Carta a Rubem Braga

 

VICTOR COELHO·TERÇA-FEIRA, 15 DE MAIO DE 2018

 

Meu amigo Rubem, 

Recebi sua carta com muita alegria! Você faz muita falta aqui!

Fui te conhecer um pouco tarde. Sabe quando? Foi na 1ª Bienal, em 2006. Eu já tinha 30 e... enfim. Não precisamos entrar nesses detalhes...

Te conhecendo, pude perceber várias coincidências entre nós! Como você sabe, tenho o mesmo sobrenome da sua mãe, dona Rachel. Mas creio que somos de tocas diferentes... Aliás o que tem de Coelho nessa cidade é caso de estudo científico!

Seu pai, Coronel Francisco Braga, foi proprietário do jornal Correio do Sul. Meu falecido pai também foi proprietário de jornal. Seu pai foi o primeiro prefeito da cidade e olha só onde eu estou hoje: dando boas-vindas a todos em um evento que leva o seu nome! Por falar em política, outra coincidência: você ajudou a fundar o partido que hoje estou filiado.

Outra: a casa da minha família é na mesma rua da sua casa. E assim como você, eu adorava brincar na rua!

Disse no início dessa carta que fomos apresentados um pouco tarde. Mas a Bienal Rubem Braga tem o papel de mudar essa história! Educação e Arte, de mãos dadas, tem plantado essa sementinha em nossas crianças. E por que não dizer nos adultos também!

Depois da Festa da Cidade, criada por seu irmão Newton, é o maior evento cultural consolidado de Cachoeiro. Modéstia à parte, somos o maior evento literário do Estado! Tá... você vai falar que ainda é pouco, que somos Capital Secreta... Mas a Bienal é uma adolescente de 12 anos. Ainda vamos chegar lá! Vamos ser reconhecidos em todo mundo!

Mas qual lado do Rubem as pessoas tem conhecido? O do jornalista mal humorado? O do cronista genial? Foi lendo suas crônicas que eu conheci um Rubem diferente. Um Rubem que amava sua terra como nenhum outro cachoeirense! Que defendia com unhas e dentes quem falasse mal da Atenas Capixaba, mesmo com todos os seus problemas!

Eu tenho muito que aprender com você. A valorizar cada cantinho dessa terra! Não de murmurar por uma árvore cortada, mas de enxergar vida nas milhares que já foram plantadas! A olhar Cachoeiro com o olhar do Braga!

Ah! Se todos fossem iguais a você, Rubão! Se todos "vendessem" com a sua alegria Cachoeiro em prosa, verso, crônica e canção, talvez não seríamos uma cidade tão secreta assim...

E você aí de cima poderia repetir pra São Pedro: "Modéstia à parte, eu sou lá de Cachoeiro!"

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