"Homens-Anjos" da estrada - Jornal Fato
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"Homens-Anjos" da estrada

No percurso da vida, muitas vezes, precisamos de apoio


Dizem que a vida é um constante caminhar e que um dia a viagem encontra seu fim.

Contudo, transcorrer o percurso da vida na solidão o torna mais pesado e, por vezes, não conseguimos chegar ao destino almejado. Desta forma, revelam-se importantes os familiares e os amigos. Igualmente são imprescindíveis as pessoas que, como anjos, cruzam, uma única vez, num instante de dificuldades, nossos caminhos, nos socorrem e partem deixando algo positivo de si.

Há anos atrás, quando ainda era uma menina, meu pai, que a época tinha um fusca branco, em um dia chuvoso, capotou com o carro seguindo de Cachoeiro para Vitória. No momento, eu e dois irmãos mais novos, todos crianças, estávamos no veículo. Graças a Deus ninguém se machucou, mas ficamos assustados.

Enquanto o carro estava tombado na estrada, Deus enviou pessoas as quais, como anjos, nos ajudaram. Uma dessas foi um caminhoneiro que, vendo nossa situação, informou que residia perto de nossa cidade, acho que em Rio Novo, e ofereceu para, enquanto meu pai resolvia as pendências do veículo acidentado, nos levar até a nossa mãe, em Cachoeiro.

Durante a viagem de retorno, sem conhecer o motorista, eu e meus irmãos ficamos desconfiados, atentos para eventuais surpresas, mas ele foi gentil todo o tempo. Meu pai, quando se deu conta de que nos tinha entregue a um estranho, ficou preocupado e, na época, não tínhamos celular.

Todavia, esse motorista, que não lembro o rosto e nem o nome, foi uma anjo em nossas vidas e, como combinado, nos entregou no trabalho de nossa mãe que, assustada, nem conseguiu agradecer direito. Depois disso, nunca mais o vimos.

Isso revela que, nem sempre, conseguimos chegar aos locais planejados. Às vezes doem os pés, outras a fadiga nos alcança e, não raro, o acaso nos impõe a necessidade de pegar carona com pessoas, queridas ou de bem, que nos ofertam socorro.

No percurso da vida, muitas vezes, precisamos de apoio, carecemos do auxílio de um "motorista" para nos levar aos lugares que, sozinhos, já não conseguiríamos chegar.

Assim, como na metáfora da vida, na vida como ela é, os motoristas também são extremamente necessários. São eles quem nos guiam aos destinos e quem nos trazem o necessário a sobrevivência. Sem falar que o tempo gasto na direção, por certo, já transformou muitos desses homens da estrada em anjos na vida de pessoas que, apenas por alguns instantes, tiveram suas vidas cruzadas com a deles.

A prova da importância dos motoristas profissionais, dentre outros episódios, revelou-se, no Brasil, entre os dias 21 e 30 de maio de 2018, período de duração de uma paralização com extensão nacional promovida pelos caminhoneiros autônomos: o Brasil parou; a ansiedade reinou; pessoas morreram; animais pereceram; a dignidade faltou...

Indisponibilidade de alimentos, de remédios, escassez de gasolina com longas filas para abastecimento; redução das frotas de ônibus; suspensão de aulas escolares; voos cancelados; algumas cidades do Brasil decretaram estado de calamidade pública, ...

A história relata que sem os motoristas, autônomos ou empregados; de transportes de carga ou de pessoas; o Brasil para; homens e mulheres se desesperam; a dignidade humana se perde.

Por essa razão, tendo em vista que na próxima quinta-feira, dia 25 de julho, comemora-se o dia do motorista, não poderia me calar acerca da importância desse profissional cujo trabalho nos traz alento e suprimento para o percurso da vida.

Do mesmo modo, não poderia me omitir acerca do risco cotidianamente enfrentado por esses profissionais cujo desafiante trabalho lhes impõe renuncias e perigos diversos nas estradas, muitas vezes, sem a devida manutenção.

Desta forma, aos profissionais motoristas que nos garantem o direito de ir e vir, os quais, por vezes, são anjos e que, se não bastasse, são essenciais para que nos cheguem vários direitos imprescindíveis à vida, fica o meu respeito, minha admiração e meu desejo de que sejam mais valorizados e de que tenham respeitados todos os direitos inerentes a esta importante profissão.


Katiuscia Marins Colunista/Jornal Fato Advogada e professora

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