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Viver bem

Durante o dia poderá ter tempo para rever a vida? Poderá, nas poucas horas do dia, solucionar mágoas passadas?


Dias atrás escrevi sobre um personagem fictício. Fruto da minha imaginação após décadas de convivência com pessoas em um dos seus momentos mais vulneráveis: durante internação hospitalar após uma enfermidade aguda ou crônica. Escrevi sobre Carlos, um homem com setenta anos de idade e acometido de dor torácica súbita e intensa. Encontrava-se sozinho, numa poltrona de Pronto Atendimento, na manhã de um fim de semana. Descrevi suas primeiras horas do atendimento médico hospitalar, afastando-se, em seus primeiros exames, uma doença coronariana aguda. Ficando a expectativa do que pode estar causando a dor que o acomete naquele instante. A solidão, e indefinição do mal estar, o faz pensar em sua vida presente e passada e os motivos que o levaram a estar no estado em que se encontra: isolado, sozinho em uma poltrona do Pronto Socorro. O que vai acontecer com Carlos não se sabe. Durante o dia poderá ter tempo para rever a vida? Poderá, nas poucas horas do dia, solucionar mágoas passadas? Não sei, o personagem está vivo em minha mente e encontra-se com um aparente grave problema de saúde.

Carlos é um nome fictício. No texto, ficção pura. Mas quando analisamos a história de vida, comportamento social e as relações afetivas e amorosas do personagem, torna-se bem real. Na verdade, um ser humano do nosso cotidiano. Bem humano. Mais do que real pela angústia e conflitos que emergem de seus silêncios e insegurança emocional. Bem humano em sua complexidade e pode ser a representação de um empresário, médico, professor, trabalhador da construção civil com sua carga horária volumosa; pode ser uma mulher em uma Academia com sua preocupação excessiva na beleza física; uma mulher ou homem preocupados com as aparências e com o ter cada vez maior, esquecendo-se de ser alguém interessante; um adolescente ou adulto jovem dependente químico ou um pouco de cada um de nós que não moderamos desejos e vaidades.

Diante de Carlos, com sua história impactante, um personagem ora real, ora ficcional, me fiz uma pergunta: o que é saber viver? Mário Quintana manda pensar: "O que levamos da vida? É a vida que a gente leva..." Mário Sergio Cortella recomenda corrermos e ficarmos atentos ao tempo de nossa existência. E lembra: A vida é curta. Por isso, não seja morno e sem sal. Nosso melhor cronista, Rubem Braga, escreveu sobre As boas coisas da vida. Ele identifica uma série de coisas simples, bem de Cachoeiro... Uma sugestão é cada um identificar aquilo que te traz mais alegria e flutuar sabiamente nas vulnerabilidades. O principal é a liberdade, livre de sentimentos de culpa por ser feliz em meio a tanta infelicidade. E, principalmente, doar parte do que nos cabe. Doar... Um olhar, uma palavra ou um toque. Não ficarmos na identificação de nome, cor de olhos, cor da pele, forma de cabelo ou abdômen. Nos mostrarmos por inteiro de corpo e alma. Sem autoengano. Buscar os segredos do Supremo Ser do Universo. Afinal, somos mortais. Um dia, da terra, partiremos.

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Sergio Damião Médico e cronista

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